Download PDF

Se você começou seus estudos de apologética lendo livros ou vendo debates de pessoas como William Lane Craig, Frank Turek, Norman Geisler e outros, você provavelmente faz uso da teologia natural na sua apologética. A teologia natural se vale da busca por sinais da existência de Deus na natureza. Como João Calvino colocou, Deus nos deu dois livros: a Bíblia e o Livro da Natureza, e cremos neste segundo porque “os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” (Salmos 19:1), sendo que “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1:20).

Em geral, usa-se a teologia natural para demonstrar a racionalidade da fé cristã através de argumentos e evidências. Além disso, parte do seu uso é para o fortalecimento da fé do cristão como indivíduo, pois ele terá mais razões para manter sua fé além de sua experiência subjetiva. Antes de ir ao foco principal do texto, devemos comentar esses dois pontos de uma perspectiva bíblica.

A Racionalidade da Fé Cristã

Em outro texto, comentei sobre o porque do cristão ter o dever de defender sua fé e o porque da fé cristã não ser uma fé cega. Judas se manifesta para “insistir que defendam a fé que, de uma vez por todas, foi confiada ao povo santo” (Judas 1:3).

Agora, o maior exemplo do crente é Jesus Cristo. E sabemos que Cristo sempre apresentava razões para se crer n’Ele. Jesus cumpria profecias e apresentava milagres de modo que, mesmo que muitos não cressem, ele não se importava, e sabia que alguns ali iriam crer quando percebessem isso. O Evangelho de João, em especial, nos da uma narrativa de Jesus apresentando constantemente milagres para convencer o povo. Jesus diz: “Creiam em mim quando digo que estou no Pai e que o Pai está em mim; ou pelo menos creiam por causa das mesmas obras” (João 14:11). No capítulo 11 de João, Jesus diz que se alegra por não ter estado presente quanto Lazaro morreu (João 11:15). Jesus, claramente, sabia tanto que Lazaro ia morrer quanto que ele já havia morrido. Mas por que, então, ele diz que “se alegra”? Ele mesmo responde: para que os discípulos creiam. No versículo 8, vemos que os discípulos de Jesus estão com medo de ir até Betânia, por acharem que podem matar Jesus e eles mesmos. No versículo 12, eles tentam qualquer desculpa para que não tenham que ir para lá. E, finalmente, no versículo 16, vemos talvez o primeiro sinal de incredulidade de Tomé, quando ele não confia em Jesus e diz que vão todos morrer. Por isso, Jesus sabe que seu sinal da ressurreição de Lazaro servirá a eles como evidência para que creiam. Tendo então que mostrar o sinal, Jesus se alegra. Jesus não se importa com nossa incredulidade, ele sabe que somos pecadores com piques de desconfiança e ansiedade. Por isso, ele se alegra (e faz questão) de apresentar razões para crermos n’Ele. Jesus poderia ter evitado a morte de Lazaro, mas preferiu permitir que ele morresse para apresentar um sinal que seria evidência para a crença dos discípulos. Esse é o amor evidencial de Cristo. A narrativa dos milagres, de fato, foi escrita “para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (João 20:31).

Manter a Fé do Crente

Outro aspecto importante da teologia natural é que ela ajuda a manter a fé do crente. Inclusive, algumas respostas apologéticas dadas a argumentos ateístas ajudam o cristão a manter sua fé firme. Pense no relato das três negações de Pedro. Na primeira vez, ele nega normalmente (Mateus 26:70). Na segunda, ele nega, mas faz juramentos (Mateus 26:72), o que é pecado, pois está mentindo (Mateus 5:33-37). Na terceira vez, dizem que ele certamente é um seguidor de Cristo, pois o falar dele o denuncia (Mateus 26:73). A partir desse ponto, Pedro nega mais uma vez, proferindo maldições e jurando, e então o galo canta e Pedro se arrepende e chora amargamente (Mateus 26:74-75).

O principal aqui é: Se Jesus não tivesse dito a Pedro que o galo cantaria (Mateus 26:34), Pedro teria se arrependido? E se Jesus não tivesse ressuscitado dos mortos, os discípulos creriam n’Ele?

A grande verdade é que Deus faz o que for necessário para que o crente persevere e não desvie. Aqueles que são salvos e eleitos não desviam definitivamente da fé nunca (João 10:28-29; Romanos 5:9-10, 8:1,31-39). Em João 10:28-29, Jesus diz que o crente jamais perecerá e ninguém (incluindo o próprio crente) poderá tirar-lhe de Suas mãos. Em Romanos 8:30, Paulo diz que aqueles que Deus predestinou ele também glorificou. Embora o “glorificou” esteja no passado, é referente a um ato passado de Deus, mas referente glorificação futura dos eleitos. E se Ele já glorificou, não podem ser “desglorificados”.

Teologia Natural Para a Glória de Deus

Por fim, a teologia natural deve ter como principal motivação a glória de Deus. Deus é glorificado quando sua existência é defendida, quando descrentes percebem a existência de Deus por meio dos argumentos e das evidências, e quando o crente fortalece sua fé com os avais que Deus mantem presentes na criação. Mas mais do que isso, a teologia natural glorifica a Deus dando a Ele o devido crédito pelo que Ele realizou.

Pense, por exemplo, no cumprimento de profecias de Jesus. Elas glorificavam a Deus mostrando uma relação dupla da parte de Deus e da parte dos homens: os homens podiam crer que Jesus é o Cristo, e Deus mantém sua imagem de fiel. O crente pode confiar em Deus e dar glórias a Ele porque ele vê em Cristo o cumprimento das promessas de Deus de que o Messias viria. Do mesmo modo, o crente glorifica a Deus quando mostra que a natureza da testemunho do que as Escrituras dizem.

Deus é demonstrado como Criador do universo pelo argumento cosmológico kalam, o que demonstra a veracidade da narrativa da criação da Bíblia (Gênesis 1:1; João 1:1-3). Deus é glorificado quando mostram que Ele projetou o universo, o mundo e a vida, o que demonstra a verdade dos textos bíblicos (Salmos 19:1; Romanos 1:20). Deus é glorificado quando apontam para Ele como o Padrão e Legislador da Moral Objetiva (Romanos 2:14-15).

Em outras palavras: assim como Deus veio para cumprir a Lei e os Profetas (Mateus 5:17) e isso glorificou a Deus, mostrando que as Suas promessas se cumpriram, então a Teologia Natural nos ajuda também a glorificar a Deus mostrando que Sua palavra é verdadeira. Desse modo, podemos concluir concordando com Stephen C. Meyer, que diz:

Explorar as evidências científicas e históricas para a existência de Deus não é apenas um exercício cognitivo, mas também é, para mim, um ato de adoração. É uma forma de dar ao Criador o crédito, a honra e a glória que pertencem a Ele. Atribuir a criação a um processo meramente natural é uma forma de idolatria, a qual todos somos propensos. Todos nós temos a tendência de minimizar Deus, pensando e agindo como se nós não estivéssemos imersos em Sua criação […] Olhar para a evidência — na Natureza e nas Escrituras — sempre me lembra de quem Ele é. E me lembra de quem eu sou — alguém que precisa d’Ele [1].


Referências

[1] Stephen C. Meyer, “Where Science Meets Faith”, In: Lee Strobel, The Case for a Creator, Grand Rapids, MI; Zondervan, p. 91.

Download PDF

Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.