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A igreja contemporânea parece ter uma espécie de briga com a apologética e a Teologia Natural. Por um lado, alguns pensam que a fé deve ser cega e somente isso. Já outros pensam que o uso de argumentos e evidências faz com que as pessoas coloquem a razão humana acima da fé. Uma importante nota que deve ser feita antes de responder a esses posicionamentos é que muitos dos cristãos não entendem o que é a apologética. Então devemos desmistificar esses erros primeiro.

A apologética quer provar que Deus existe?

O erro mais comum é daqueles que dizem que são contra a apologética e a Teologia Natural por acharem que não se pode provar que Deus existe. Bom, estão errados! Não no que diz respeito ao provar que Deus existe, mas sim com esse ser o motivo para se negar a apologética e a Teologia Natural. A apologética não é a tentativa de provar que Deus existe, mas sim de apresentar uma justificativa racional para a fé cristã.

“Deus não precisa de defesa!”

Verdade. Mas por algum motivo Ele pede uma defesa da fé cristã. A Bíblia diz em 1 Pedro 3:15 que devemos estar “sempre (aei) preparados para responder (apologia) a qualquer um que pedir a razão (logos) da nossa esperança”. A palavra grega aei significa em qualquer circunstância. E a palavra apologia significa defender. É a mesma palavra que Paulo usa quando diz que “foi posto para a defesa (apologia) do evangelho” (Filipenses 1:17). No Novo Testamento, também temos um pedido para “batalhar pela fé uma vez entregue aos santos” (Judas 3).

A filosofia é vã?

Outra confusão comum vem do texto de Paulo em Colossenses, que diz: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Colossenses 2:8).

Muitos interpretam esse texto erroneamente, como se Paulo estivesse falando que a filosofia em si é vã e que é para tomarmos cuidado com ela. Porém, note que Paulo não diz isso. Ele diz para tomar cuidado com vãs filosofias, não diz que a filosofia é vã. Em outras palavras, não devemos tomar certas filosofias como regra de fé. Mas a filosofia pode ser usada se for pelo bem do Evangelho. Foi assim que Paulo usou em Atos 17 com os atenienses. Nesse episódio, Paulo não usou nenhuma passagem da Bíblia, mas apenas citou filósofos gregos (Atos 17:28-29). E ninguém pode dizer que ele falhou nessa pregação usando a filosofia, pois no final do texto alguns são convertidos. Entre eles, Dionísio, o Areopagita. O interessante desse fato é que, procurando no Google Maps pelo Areópago, na cidade de Atenas, é possível ver duas ruas com nomes notórios: uma chamada Apostolo Paulo, e outra chamada Dionísio, o Areopagita. Eis a importância da apologética e da Teologia Natural: a passagem de Paulo por Atenas naquele tempo tem sua influência perceptível até os dias de hoje.

A sabedoria humana é loucura?

Outro texto usado contra a filosofia é 1 Coríntios 1-2, que fala da sabedoria humana e de como a sabedoria de Deus parece loucura para os desse mundo. Paulo diz que não é a sabedoria humana que fundamenta a fé, mas sim o poder de Deus. O problema aqui é que, se esse fosse o caso, Paulo estaria se contradizendo nos textos citados acima de Atos 17. Além disso, em 1 Coríntios capítulo 15, Paulo apela para as evidências com um simples raciocínio:

  1. Se Cristo não ressuscitou, inútil é nossa fé (15:14).
  2. Mas, Cristo ressuscitou dos mortos (15:20).
    • Evidência do testemunho ocular (15:3-8).
  3. Portanto, nossa fé não é inútil.

De fato, no próprio capítulo 15, Paulo cita um autor grego chamado Menandro no versículo 33, onde diz “as más companhias corrompem os bons costumes”. Já que um princípio básico da hermenêutica é que a Escritura não pode contradizer a Escritura, então devemos eliminar essa interpretação. Com respeito a essa passagem de 1 Coríntios 1-2, William Lane Craig e J. P. Moreland comentam:

A passagem é mais bem compreendida como uma condenação do falso e orgulhoso uso da razão, não da razão em si. É a hybris (orgulho) que está em jogo, não o noüs (pensamento). A passagem também pode ser uma condenação da retórica grega. Os oradores gregos se orgulhavam de possuir “persuasivas palavras de sabedoria”, e era seu ofício convencer as massas sobre qualquer um dos lados de um debate, conforme quem pagasse mais. Eles não fundamentavam sua persuasão sobre considerações racionais, mas na habilidade em falar, ignorando assim as questões substanciais. Paulo provavelmente está se contrapondo aos retóricos gregos [1].

Em outras palavras, é a retórica enganosa de alguns filósofos que se vangloriam de seu linguajar que deve ser evitada, mas não a filosofia em si.

A fé cristã é uma fé cega?

Com todos os textos bíblicos citados até agora, devemos crer que a fé cristã é cega? Existem alguns textos que são usados para sustentar esse posicionamento fideísta. Em primeiro lugar, usam Hebreus 11:1 que diz que “a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Esse texto é o principal usado pelos defensores de uma fé cega. Porém, essa interpretação parece ser um pouco equivocada.

Obviamente, aquilo que esperamos não é algo visto. Mas isso não significa em ponto nenhum que devemos ter esperança com base em nada. A palavra grega para “fé” é pistis, que significa confiança. Em outras palavras, podemos entender o texto como se o autor estivesse dizendo que nossa confiança (mesmo que baseada em fatos e na razão) é a base para a nossa esperança. E esse parece ser, de fato, o sentido do texto. Note os exemplos de fé citados em seguida: Abraão confiou em Deus, não creu em sua existência cegamente. E Abraão não se tornou um exemplo de fé imediatamente. No capítulo 12 ele desvia do caminho que Deus o ordenou (desconfiou de Deus). No capítulo 17 ele zomba quando Deus diz que ele terá um filho (desconfiou novamente). E somente no capítulo 20 ele verdadeiramente confia em Deus, pois já passou por experiências que lhe serviram de evidência para garantir que podia confiar em Deus. Essa confiança como sentido intencional de pistis em Hebreus fica evidente quando ele termina de descrever a fé de Abraão com: “Abraão levou em conta que Deus pode ressuscitar os mortos; e, figuradamente, recebeu Isaque de volta dentre os mortos” (11:19).

A fé cristã é como a de Moisés

Depois do exemplo de Abraão, Hebreus cita Moisés (11:23-29). Mas sua história dificilmente pode ser um exemplo de fé cega. O texto começa com a fé dos pais de Moisés, “Pela fé Moisés, recém-nascido, foi escondido durante três meses por seus pais, pois estes viram que ele não era uma criança comum, e não temeram o decreto do rei.” Note que eles tiveram fé “pois viram que ele não era uma criança comum”. Na história do Êxodo, o próprio Deus parece ser contra essa fé e confiança cega que alguns cristãos tentam promover. Deus dá a Moisés evidências para que ele apresente aos Israelitas: Primeiro, Moisés poderia transformar o cajado em uma cobra (Êxodo 4:2-5). Segundo, Moisés poderia deixar a mão leprosa (4:6-7). Por fim, Moisés podia transformar as águas do rio Nilo em sangue (4:9). E todos esses sinais foram dados como evidência para que os israelitas acreditassem (4:5,8,9).

Assim, o texto de Hebreus 11 fala de confiança nas promessas futuras de Deus. Foi isso o que Deus prometeu a Abraão e a Moisés. Prometeu que Abraão seria pai de nações, e a Moisés prometeu que livraria o povo do Egito e o levaria à Terra Prometida. Logo depois ele foca na confiança de Noé na promessa de Deus (11:7), na confiança daqueles que morreram sem ver a promessa cumprida (11:13), na confiança de José (11:22).

A fé cristã é a confiança na obra completa de Cristo

Esse entendimento de fé como confiança em Deus parece ser muito mais forte e profundo não apenas nas Escrituras, mas também na vida cristã e no relacionamento com Cristo. Esse “acreditar cegamente” traz um problema fundamental no relacionamento do cristão com Cristo. Permita-me exemplificar com uma analogia: você pode acreditar na existência da sua esposa, e pode até mesmo acreditar que ela se casou com você. Mas se não houver confiança, não existe relacionamento. Do mesmo modo, o crente pode acreditar que Deus existe, e pode acreditar que Jesus morreu por ele. Mas sem confiança na obra de Cristo e em seus efeitos, não há relacionamento pessoal com Ele. Mas como pode alguém crer que Cristo morreu por ele e não ser salvo? Ora, vemos isso todos os dias com os crentes que esquentam bancos todo o domingo. Existem esses falsos cristãos que creem em Jesus, mas não confiam que Seu sacrifício foi necessário para sua redenção. Não há confiança na obra de Cristo, apenas acreditam que ela ocorreu.

A apologética tem propósito bem definido

Deve ser admitido que a apologética se limita ao demonstrar a racionalidade da crença em Deus e em verdades específicas do Cristianismo (como a credibilidade histórica das Escrituras, as evidências históricas da ressurreição de Jesus, etc). Mas esse entendimento é primário para se avançar para a confiança. Assim como Abraão e Moisés tiveram experiências com Deus antes de confiar n’Ele, o crente pode ter evidências e argumentos antes de confiar inteiramente n’Ele. Essa pode ser uma forma legitima do Espirito Santo agir na vida de uma pessoa. Mas o prejudicial para a igreja é a promoção dessa fé cega, que gera crentes que creem na existência da esposa e que o casamento ocorreu.

Manter fé cega não produz experiências com Deus

É claro que, deve ser dito, que uma fé cega pode ser o “motor inicial” de uma genuína conversão. Mas uma fé genuína produz experiências com Deus. Em outras palavras, por mais que uma conversão tenha início com uma fé cega, o convertido nunca se mantém com fé cega. Ele terá, ao longo de sua vida, uma série de experiências com Deus que o servem de garantia para confiar n’Ele.

“Bem-aventurados os que não viram e creram”

Outro texto citado pelos proponentes da fé cega é o de João 20:29, que diz: “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram”. Não seria esse, portanto, um bom versículo a favor da fé cega? Longe disso. Como é costumeiro dizer, texto fora de contexto é pretexto. Nos versículos anteriores, o que está sendo narrado é a história de Tomé precisando ver para crer. Note que em nenhum momento Jesus o repreende por querer evidências para sua crença. Pelo contrário, Jesus mesmo apresenta as evidências! E o versículo seguinte diz: “Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:30-31). Note que Jesus apresentou muitos outros milagres. Se o versículo 21 estivesse dizendo o que os proponentes de uma fé cega querem, o texto completo estaria se contradizendo, dizendo algo como: “Bem-aventurados os que não viram e creram. Jesus, porém, apresentou vários milagres para que os discípulos vissem quem ele era”. Isso seria uma contradição óbvia. Com respeito a esse texto, Shane Scott diz:

De acordo com esse texto, a fé não é um salto cego na irracionalidade. Ela é uma decisão de confiar em Jesus como o Messias, baseado no testemunho ocular dos apóstolos. Tomé não creu no testemunho deles, mas muitas pessoas através dos séculos creram. E essas pessoas “que não vieram e creram” são bem-aventuradas de acordo com Jesus [2].

Então, o texto fala daqueles que creem sem ser testemunhas oculares, mas não que esses devem crer cegamente em Jesus. Se Jesus fosse contra a apresentação de evidências como fundamento de uma fé, ele jamais teria apresentado milagres, cumprido profecias ou ressuscitado dos mortos. Todas essas evidências apresentadas por ele constituem um caso cumulativo de quem Jesus realmente era, e uma garantia para a verdade de suas declarações de divindade.

“Andamos pela fé, não pelo que vemos”

Um dos textos mais usados é o de 2 Coríntios 5:7, que diz que “andamos pela fé, não pelo que vemos”. Note, porém, que o texto não diz “andamos pela fé, não pela razão”. Não há esse contraste. Ele é colocado com nossos olhos modernos do entendimento de que a fé é algo irracional. Paulo fala a carta toda sobre os seus sofrimentos e suas fraquezas. Aqui, novamente, ele está falando de confiar em Deus. Como Scott diz:

Um dos temas chave de Segunda Coríntios é o sofrimento e as fraquezas de Paulo. E no quarto capítulo, Paulo expressa sua grande esperança da ressurreição, “sabendo que ele que ressuscitou o Senhor Jesus vai nos ressuscitar com Jesus e nos levar diante de sua presença” (2 Coríntios 4:14). Note que a crença de Paulo em sua própria ressurreição é baseada diretamente na razão — Deus ressuscitou Jesus dos mortos, então ele pode me ressuscitar também [2].

Portanto, a preocupação de Paulo aqui é em demonstrar a confiança em Deus e no que Ele pode fazer por ele. Não em falar aos coríntios que devem crer cegamente. Principalmente porque ele tem a forte evidência da ressurreição para fundamentar sua crença na sua ressurreição.

Sola scriptura mal compreendida

Por fim, é costumeiro também o uso do texto de Isaías 55:11, que diz: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”. Algumas pessoas usam esse texto para fundamentar a ideia de que devem apenas pregar o que está escrito na Bíblia, e essa informação passada nunca voltará vazia. Porém, novamente, texto fora de contexto é pretexto. Essa confusão se deve ao fato de que há um equívoco ao se usar a expressão “Palavra de Deus”. É verdade que, em certos contextos, “Palavra de Deus” se refere a toda a Bíblia. Porém, quando Deus diz aqui “minha palavra” ele não está falando da Bíblia. Isso é visto no contexto dos capítulos anteriores. Isaías está escrevendo esse texto com a preocupação de que Israel seria liberto da Babilônia. Todo o raciocínio começa em 51:14, que diz: “O exilado cativo depressa será solto, e não morrerá na caverna, e o seu pão não lhe faltará”. Daqui até “minha palavra não voltará vazia” Deus faz diversas promessas, incluindo a promessa do Messias. Como diz Nate Sala:

Entre este verso [51:14] e 55:11, Deus faz diversas promessas de que Israel será liberta e retornará à sua terra. Maior ainda é a promessa de que um futuro Servo Sofredor (52:13-15) virá para redimir Israel junto com a promessa de que a “aliança de paz de Deus não mudará” (54:10). Depois de todas essas promessas nos capítulos anteriores, Deus diz, “[Minha palavra] não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (55:11) [3].

O mesmo autor conclui que “o contexto é claro: A ‘palavra’ de Deus se refere às várias promessas que Ele fez à Israel. Sua declaração aqui é especificamente intencionada a garantir à Israel que Sua promessa se cumprirá” [3].

Conclusão

Vimos, portanto, que algumas afirmações relacionadas ao que é a apologética são apenas confusões. Vimos boas razões bíblicas para se defender a fé e demonstrar a racionalidade da fé em Deus (1 Pedro 3:15, Judas 3, Filipenses 1:17). Também vimos como a Bíblia ensina uma confiança em Deus, não uma fé cega. Confiança essa que pode ser baseada em evidências e experiências. E os textos usados para justificar uma fé cega são, na verdade, mal interpretados e tirados de contexto.


Referências

[1] CRAIG, William Lane; MORELAND, J. P. Filosofia e cosmovisão cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 36.

[2] FOCUS MAGAZINE, Blind Faith vs reasoned trust, 2017, disponível em <http://focusmagazine.org/blind-faith-vs-reasoned-trust.php>. Acesso em 03/07/2018.

[3] CLEAR LENS, Why the Word of God does return void, 20/08/2014, disponível em <https://clearlens.org/why-the-word-of-god-does-return-void/>. Acesso em 18/06/2018.

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Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

    6 replies to "Por que Devemos Usar a Apologética?"

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