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A ideia central defendida por leigos e parte dos filósofos profissionais é a do relativismo alético. Em outras palavras, dizem eles que a verdade é relativa. O que é verdade para você não é verdade para mim, e isso é tudo. Quando um leigo diz isso, ele sente como se tivesse dito a coisa mais óbvia e profunda do mundo. Afinal, os hindus creem em uma coisa, enquanto os cristãos em outra. Mas será mesmo que essa ideia faz algum sentido? Será que ela é logicamente coerente?

O relativismo se divide em duas versões: o relativismo individual e o relativismo cultural. O relativismo individual vem desde os tempos de Sócrates, quando Protágoras disse a famosa frase “o homem é a medida de todas as coisas”. O relativismo cultural, muitas vezes é chamado de perspectivismo, e ensina que a verdade varia de cultura para cultura, de época para época, e que cada verdade é apenas a interpretação que vem de uma perspectiva cultural. Nos textos anteriores, já vimos alguns problemas de argumentos relativistas baseados na linguagem e nas limitações culturais. Por isso, hoje nos concentraremos em argumentos contra essas formas de relativismo.

A Motivação do Relativismo

Apesar dos argumentos, o filósofo John Searle expõe os motivos pelos quais ele acredita que as pessoas adoram esse relativismo, ou antirrealismo. Searle diz:

Devo confessar, no entanto, que acredito que haja uma razão muito mais profunda para a persistente sedução de todas as formas de antirrealismo, e isso se tomou óbvio no século XX: ela satisfaz um desejo básico de poder. Parece demasiado repulsivo, de algum modo, que devamos estar à mercê do “mundo real”. Parece ruim demais que nossas representações tenham de depender exclusivamente de nós. É por isso que pessoas que defendem versões contemporâneas do antirrealismo e rejeitam a teoria da verdade como correspondência em geral desdenham o ponto de vista oposto. [1]

Em outras palavras, a tese de Searle é que as pessoas adotam esses pontos de vista por um desejo pelo poder. O homem não deve estar à mercê do “mundo real”, pois isso parece repulsivo. Searle continua em sua análise:

Penso que, no que diz respeito à história cultural e intelectual contemporânea, os ataques ao realismo não são motivados por argumentos, porque estes são mais ou menos obviamente débeis […] Pelo contrário conforme sugeri anteriormente, a motivação para negar o realismo é um tipo de vontade de potência, e ela se manifesta de diversas maneiras. Nas universidades, principalmente em várias disciplinas das ciências humanas, parte-se do princípio de que, se um mundo real não existe, então a ciência natural repousa sobre a mesma base das ciências humanas. Ambas lidam com interpretações sociais, não com realidades independentes. Partindo desse princípio, formas de pós-modernismo, desconstrutivismo e assim por diante são desenvolvidas com facilidade, já que foram completamente desvinculadas das enfadonhas amarras e limites de ter de enfrentar o mundo real. Se o mundo real é apenas uma invenção — uma interpretação social destinada a oprimir os elementos marginalizados da sociedade —,  então vamos nos livrar do mundo real e construir o mundo que queremos. Esta, acredito, é a verdadeira força psicológica em ação por trás do antirrealismo no final do século XX. [2]

Nessa parte, como deve ter ficado evidente, eu concordo com Searle. Porém, isso não é uma refutação do relativismo. Seria falacioso se eu (e Searle) propusesse que apontar a origem de uma crença como uma refutação da crença. Sendo assim, vamos para argumentos contra o relativismo.

Relativismo Individual

Avaliemos, primeiro, o relativismo individual, que diz que a verdade varia de pessoa para pessoa. Nesse sentido, não há verdade absoluta, apenas verdades relativas a pessoas e preferencias ou pontos de vista. Há três proposições que definem o relativismo:

— “O que é verdade para você não é verdade para mim.”
— “Não há verdades absolutas.”
— “A verdade é relativa.”

Considere, por exemplo, a proposição presente na sentença “a neve é branca”. Para o teorista da correspondência, “a neve é branca” é verdade se, e somente se, for o fato de que a neve é branca. Isso, é claro, em uma relação de correspondência é uma verdade objetiva. Se for o fato da neve ser branca, então a proposição que diz que a neve é branca é objetivamente verdadeira, independente de opinião ou crença. Mas o relativista não pode aceitar a existência de verdades objetivas. Então, até mesmo uma verdade “banal” como essa deve ser tratada como algo relativo.

Suponha que eu diga que está chovendo em São Paulo no dia 27 de julho de 2018 d.C. Se estiver chovendo, esse fato é inegável. Porém, se o relativismo for verdade, então devemos traduzir essa frase para a seguinte: é verdade que está chovendo, mas isso é uma verdade relativa apenas ao meu ponto de vista. Então, é verdade para mim, mas pode não ser para você [3]. Ou seja, a própria realidade da chuva é relativa. Se considerarmos “a neve é branca é verdade” se, e somente se a neve for branca, não é só “a neve é branca é verdade” que se torna relativa, mas a própria realidade da neve ser branca. A declaração, “está chovendo de acordo com o meu ponto de vista”, é perfeitamente consistente com a declaração, “não está chovendo de acordo com o seu ponto de vista”. A verdade, portanto, se relativizada, acaba relativizando a própria realidade [4].

Em outras palavras: quando eu digo “está chovendo”, estou dizendo que “para mim, está chovendo” ao mesmo tempo em que “para você, não está chovendo”. Mas então, outro problema imediatamente aparece: se a verdade é relativa (e, assim, a realidade também é relativa), então há uma regressão infinita de verdades relativas. Afinal, não há pessoas que possuem pontos de vista diferentes? Assim, usando nosso exemplo anterior, quando eu digo “está chovendo de acordo com o meu ponto de vista”, você poderia responder que “‘está chovendo de acordo com o seu ponto de vista’ é verdade de acordo com o meu ponto de vista” Dito de outro modo:

(a): “Está chovendo” deve ser interpretado como:
(b): “(a) é apenas relativo ao ponto de vista 1”, que também é uma proposição relativa, e, assim, deve ser interpretada como:
(c): “(b) é apenas relativo ao ponto de vista 2”, e então, sendo (c) tão relativo quanto (a) e (b):
(d): “(c) é apenas relativo ao ponto de vista 3”, e assim por diante [5].

Searle conclui:

A regressão infinita segue automaticamente. Por que o regresso é vicioso? Porque ele torna impossível fazer uma declaração a respeito de qualquer coisa. Pois para qualquer declaração relativista deve sempre haver alguma outra declaração por trás dela, a qual gera sua interpretação relativista, mas essa outra declaração possui tanta necessidade de uma interpretação relativista quanto a original. [6]

Isso se segue se definirmos que a verdade é relativa a pessoas e pontos de vista. Mas Searle considera outra possibilidade: se, do meu ponto de vista, o qual é o único ponto de vista que tenho acesso, pessoas e suas preferências existem apenas relativos a mim. O problema aqui é que isso cai em um solipsismo, que é a crença que apenas a minha mente existe, enquanto todo o resto é ilusório. [7]

A Natureza Imoral do Relativismo

Agora, problemas mais sérios aguardam nossos amigos relativistas. Se a verdade é relativa, então verdades morais também são relativas. Sendo assim, valores também são relativos. Ou seja, não há nada de valoroso no próprio ser humano. Como Greg Koukl e Francis Beckwith expressam:

Quando a verdade morre, todas as suas subespécies, como a ética, perecem com ela. […] Se não há verdade, então nada possui valor transcendente. Isso inclui o ser humano. A morte da moralidade reduz as pessoas ao status de meras criaturas. Quando as pessoas são vistas como coisas, então elas [as coisas] começam a ser tratadas como pessoas. [8]

Em outras palavras, o ser humano fica perdido em uma onda niilista. Se a verdade e a moral são relativas a pessoas, ninguém pode, de modo coerente, acusar Hitler ou Stalin de ter feito algo errado. Do ponto de vista relativista, torturar homossexuais, machismo extremo e oprimir minorias não são atos objetivamente errados. Afinal, a verdade varia de pessoa para pessoa. Um psicopata que estupra e mata mulheres não faz nada de absolutamente errado para o relativista. Apesar de não ser o foco agora, o apelo às culturas diferentes não ajuda o relativista. Hitler convenceu milhares de pessoas que deveriam torturar e matar seis milhões de judeus. Isso torna o ato dele certo? Do mesmo modo, ninguém poderia dizer que culturas que mutilam a genitália feminina está errada. Não há nenhum julgamento moral possível. O relativismo nos deixa em um mar de desespero, onde fingimos que há coisas erradas, mas no fim estamos apenas encenando para não admitir o óbvio. Isto, contudo, será mais detalhado em outro momento.

A Destruição da Lógica e da Filosofia

O relativismo gera um problema com relação à lógica e argumentação. Por que, devemos questionar, há qualquer discussão? No relativismo, eu tenho meu ponto de vista, você tem o seu, eu tenho meus argumentos, você tem os seus. Nenhuma discussão é possível, pois ninguém está certo. O exercício da filosofia torna-se vão. Como Thomas Nagel expressa:

O pior de tudo é que esse subjetivismo não é apenas um inconsequente floreado intelectual ou um emblema de elegância teórica, mas uma tática para rechaçar argumentos ou para minimizar as pretensões dos argumentos alheios. As asserções de que algo seja verdadeiro ou falso, certo ou errado, bom ou mau, sem restrição relativista, correm o risco de ser ridicularizadas como expressões de perspectiva limitada ou como forma de vida – não como base prévia para demonstrar que isso é equivocado enquanto outra coisa é correta, mas como uma maneira de demonstrar que nada é correto e que, ao contrário, estamos todos apenas expressando nossos pontos de vista pessoais ou culturais. [9]

O ponto de Nagel é importante: no relativismo, tudo se torna irrelevante. As discussões não fazem o menor sentido, pois ninguém está certo ou errado, mas são apenas expressões de suas perspectivas e culturas. O resultado disso, Nagel diz:

O que daí resulta é o crescimento da já extrema preguiça intelectual da cultura contemporânea e o colapso da argumentação séria que permeia o baixo alcance das humanidades e das ciências sociais, junto com a recusa em tomar a sério, considerando-os como nada mais que declarações de primeira pessoa os argumentos objetivos de outrem. [10]

A Natureza Autocontraditória do Relativismo

O relativismo encontra um problema sério relacionado a sua incoerência interna. Se a verdade é relativa, então não seria essa verdade relativa? Se a resposta for sim então não é algo sobre o mundo real, mas apenas a preferência do relativista. Em outras palavras, é irrelevante. Se a resposta for não, então essa é uma verdade objetiva, o que contradiz a si mesma.

Mas o mais profundo dessa objeção é que, se a verdade for relativa, então qualquer argumento e até mesmo a lógica por trás dele torna-se relativa. Considere o seguinte argumento:

Premissa 1 — O que se crê ser verdade muda de cultura para cultura e de época para época.
Premissa 2 — O que é verdade depende do que se crê ser verdade.
Conclusão — Portanto, o que é verdade muda de cultura para cultura e de época para época.

Esse argumento central do relativismo torna-se inválido pela conclusão. Se a verdade é relativa, então as premissas desse argumento são verdades relativas também. Ou seja, nem o próprio argumento do relativismo deve ser aceito como verdadeiro, mas apenas como uma opinião baseada em opiniões. E, pior que isso, os princípios da lógica, sendo relativos, fazem das premissas e da conclusão inválidas ou incoerentes.

Considere o princípio da não-contradição: as proposições A e não-A não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Se o relativismo for verdade, então esse princípio se torna relativo também. Ele não é uma verdade objetiva. Sendo assim, se nós concluirmos que:

(A) — O que é verdade muda de cultura para cultura e de época para época.

Então também concluímos que:

(Não-A) — O que é verdade não muda de cultura para cultura e de época para época.

Como o princípio da não-contradição não é objetivamente verdadeiro, então ambas as conclusões se tornam verdadeiras ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Não há qualquer saída para o relativista. Sua tese não só se contradiz, como também contradiz seus próprios argumentos e toda a lógica por trás deles.

Além disso tudo, esse argumento dos relativistas exposto acima incorre de petição de princípio. Em outras palavras, só se aceita uma premissa quem já tiver aceito a conclusão. Sendo assim, cai em um raciocínio circular.

O Perspectivismo se Salva?

O perspectivismo encontra o mesmo problema de autorrefutação. Como diz Paul Copan: “O perspectivista está fazendo uma afirmação de conhecimento, crendo que sua visão é verdadeira. Porém, como pode ter certeza disso se está preso em sua própria perspectiva?” [11] O perspectivista diz que não se pode sair da perspectiva de sua própria cultura, ao mesmo tempo em que afirma que sabe algo sobre todas as outras culturas. Em um diálogo com uma perspectivista, Copan apontou esse problema questionando:

Como você sabe que a sua perspectiva está correta? Não estaria você dando apenas sua perspectiva cultural? Se sim, então é apenas uma entre várias. Por que então a sua deveria ser favorecida? Mas você parece estar dizendo mais do que isso: Você está argumentando que a sua perspectiva se aplica a todas as perspectivas. E se a perspectiva de outra pessoa discordar da sua, então essa pessoa estaria errada. [12]

O Relativista Propõe Estar Certo?

Para escapar de todos esses problemas, o relativista pode dizer: “Ok, eu sei que é uma autocontradição, mas eu não estou propondo que eu esteja certo. Minha tese não se propõe ser a verdade.” É claro que, isso é apenas algo dito da boca pra fora, e isso fica claro quando entendemos o seguinte: primeiro, ninguém está fazendo uma análise do estado psicológico do relativista com relação à sua tese. É irrelevante o que ele propõe, mas sim a própria incoerência interna da tese relativista. Segundo, perceber uma autocontradição e dizer que apesar dela não se propõe que sua tese esteja certa não responde o problema. É como dizer “estou errado, mas percebo isso. Portanto estou certo”. Por fim, se o relativista não propõe que seu ponto de vista seja verdadeiro, então qual o sentido de ele ter que dizer isso para tentar se conformar com a autocontradição? De fato, se o relativista não crê que sua visão de mundo seja a verdadeira, então por que argumentar sobre isso?

Conclusão

Mais poderia ser dito, mas acredito que o suficiente tenha sido dito para rejeitarmos o relativismo. Ele não apenas nos leva a um problema de regressão infinita ou solipsismo, como também justifica atos imorais, destrói a filosofia e cai em uma contradição interna absurda. O relativismo não apenas se contradiz, mas contradiz seus argumentos a favor e toda a lógica por trás deles. O perspectivismo também não escapa desses problemas.


Referências

[1] SEARLE, John R. Mente, linguagem e sociedade: filosofia no mundo real, Rio de Janeiro: Rocco, 2000, ePub Parágrafo 7.50 (itálico meu).
[2] Ibid. ePub Parágrafo 7.52 (itálico meu).
[3] SEARLE, John R. The Refutation of Relativism, 2001, p. 3,  disponível em <http://www.u.arizona.edu/~aversa/refutationofrelativism.pdf>; acesso 26/07/2018.
[4] Ibid.
[5] Ibid. p. 4-6.
[6] Ibid. p. 6.
[7] Ibid.
[8] BECKWITH, Francis J.; KOUKL, Gregory. Relativism: feet firmly planted in mid-air, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1998, Kindle pos. 143-177.
[9] NAGEL, Thomas. A última palavra, São Paulo: Editora UNESP, 2001, p. 14.
[10] Ibid.
[11] Paul Copan. True for you but not for me: Overcoming Objections to the Christian Faith, Bloomington, Minnesota:Bethany House Publishers, 2009, p. 53.
[12] Ibid. p. 55-56.

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Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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