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No último texto, vimos como definir a verdade de acordo com a Teoria da Verdade por Correspondência. Vimos também que é mais plausível que essa teoria seja verdadeira do que falsa. Em outras palavras, devemos definir a verdade como a correspondência entre a proposição e o fato. Não é a correspondência entre o conjunto linguístico ou os sons emitidos e os fatos, mas sim a correspondência entre o conteúdo proposicional das sentenças e enunciados com os fatos.

Hoje, expandiremos um pouco nesse conceito de verdade, respondendo também a certas objeções e possíveis limitações apresentadas em resposta à teoria da verdade por correspondência.

Verdade e Verificação

A verdade independe da sua verificação. Em outras palavras, eu não preciso verificar um fato empiricamente para saber que é verdade ou ter uma garantia de alta probabilidade de que é verdade. Isso, é claro, é algo contrário ao que diz o antigo Princípio da Verificação de Sentido (ou Verificacionismo). Esse princípio era a principal característica do Positivismo, que dizia que para que uma sentença tenha sentido ela deve ser empiricamente verificável, em princípio. Porém, ele tem sido quase universalmente rejeitado no meio científico e filosófico.

De acordo com o filósofo ateu J. L. Mackie, o Princípio da Verificação de Sentido é “altamente implausível” e cria diversos problemas relacionados a declarações sobre o passado, sobre eventos históricos, sobre mentes, sobre os sentimentos dos outros, entre outros problemas [1]. Richard Swinburne também diz que em geral, se concorda que o Verificacionismo é falso. Swinburne diz que o principal argumento que levou ao abandono dessa forma de Verificacionismo é o de que ele invalidaria o sentido de diversos enunciados universais, como “todos os corvos são (em todo o tempo) pretos”[2] ou, podemos usar de um exemplo clássico também, “todos os homens são mortais”.

Talvez o problema central do princípio da verificação de sentido seja que, pelos seus próprios critérios, ele mesmo não poderia fazer sentido. A sentença, “para que uma sentença faça sentido ela deve, em princípio, ser empiricamente verificável”, não pode ser empiricamente verificada. O filósofo Ronald Nash disse corretamente que “o critério de sentido dos positivistas se mostrou sem sentido […] hoje, é difícil encontrar qualquer filósofo que esteja disposto a levantar a bandeira do Positivismo Lógico publicamente. O movimento está morto e bem propriamente” [3].

Comparando Julgamentos e Fatos

Uma objeção comum é a de que nós não podemos ter acesso aos fatos, apenas aos nossos pensamentos. Por estarmos presos em nossa perspectiva e pensamentos, nunca poderíamos comparar nossos julgamentos com os fatos, o que impossibilitaria a relação de correspondência. Contudo, essa objeção é irrelevante. Uma teoria de verdade não é uma teoria de epistemologia. A Teoria da Verdade por Correspondência busca dizer apenas o que a verdade é, e não dar uma forma de como determinar o que é verdadeiro ou falso [4].

O opositor poderia continuar dizendo que é impossível fazer um julgamento do fato em si mesmo. Impossível pois ele sempre estaria sendo julgado por nossas lentes e pela forma como o conceituamos. Esses conceitos seriam derivados de cultura e tradição. Os “fatos” que vemos são definidos de modo como nossa cultura e tradição definem. É a estes “fatos culturalmente definidos” que compararíamos nossas proposições, não com o fato ou a coisa em si.

Nossos amigos pós-modernos argumentam que as pessoas estão presas em suas práticas formadas pela comunidade e práticas linguísticas. Estas servem como um “muro” que impede que algo seja comparado com o mundo real exterior. Ou seja, como se pode saber da correspondência entre o portador da verdade (proposição) e aquilo que assegura a verdade (fato)? Esse filtro linguístico, para os pós-modernistas, impede que a fala seja comparada ao mundo externo. Sendo assim, como adquirir conhecimento?

Isso, porém, mostra-se como um posicionamento auto-refutável. Como J. P. Moreland explica, “se estamos presos atrás de uma estrutura de tal forma que o olhar simples e direto é impossível, então não há quantidade de pensamento recente que nos ajude a ver algo. Tudo que poderia fazer seria convidar-nos a ver algo assim e assado de dentro de uma estrutura conceitual” [5]. Em outras palavras, como pode o pós-modernista falar sobre o fato de se estar preso em uma barreira linguística, assim impossibilitando o acesso ao fato em si? Como o pós-modernista vê isso a respeito das culturas, comunidades e práticas linguísticas, se ele está impossibilitado de ver isso por causa de sua barreira cultural, comunitária e linguística?

Verdade e Objetividade

Como um suspiro de uma filosofia já morta, o pós-modernista ainda declara que ninguém usa a racionalidade de modo objetivo, pois sempre possui uma tendenciosidade. Isso é falso, pois pessoas podem ser neutras quando não dominam algum assunto ou não pensam profundamente sobre ele [6]. Ainda assim, essa acusação dos pós-modernistas é uma confusão entre objetividade psicológica e objetividade racional. Objetividade racional, William Lane Craig e J. P. Moreland explicam:

Uma pessoa tem objetividade racional no caso de poder discernir a diferença que existe entre razões genuinamente boas ou más para uma crença e quando alguém se apega àquela crença por boas razões. A coisa importante aqui é que o viés não elimina a habilidade de uma pessoa de avaliar as razões para alguma coisa. O viés pode tornar as coisas mais difíceis, mas não impossíveis [7].

Craig e Moreland vão adiante explicando que, se o viés tornasse impossível a objetividade racional, nenhum professor poderia ensinar sobre um ponto de vista em oposição ao que ele crê. Incluindo o professor pós-modernista! [8]

Conclusão

Aqui, continuamos a exposição e defesa da Teoria da Verdade por Correspondência. Uma verdade independe de verificação ou conhecimento. Além disso, barreiras relacionadas à cultura, comunidade ou prática linguística não nos impedem de avaliar os fatos. Argumentar a favor disso é autocontraditório. A partir daqui veremos outras teorias de verdade e como devemos pensar a respeito delas e quais suas falhas e possíveis utilidades. Além disso, veremos porque o cristão deve ser a favor de uma teoria de correspondência, em oposição a outras teorias alternativas.


Referências

[1] MACKIE, John L. The Miracle of Theism: Arguments for and against the existence of God, Nova Iorque: Oxford University Press, 1982, p. 2.

[2] SWINBURNE, Richard. The Coherence of Theism, Nova Iorque: Oxford University Press, 1993, p. 23.

[3] NASH, Ronald H. Faith and Reason: Searching for a Rational Faith, Grand Rapids, MI: Zondervan, 1988, p. 53.

[4] ALSTON, William, A Realist Conception of Truth, Nova Iorque: Cornell University Press, 1996, p. 86. Alston fala em um contexto de teoria realista da verdade, que é uma variação da teoria da correspondência.

[5] J. P. Moreland, “O Pós-Modernismo e a Verdade”, In: GEISLER, Norman L.; MEISTER, Chad V. Razões para Crer: apresentando argumentos a favor da fé cristã, Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 128.

[6] CRAIG, William Lane; Moreland, J. P. Filosofia e cosmovisão cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 192.

[7] Ibid.

[8] Ibid. p. 193.

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Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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