Download PDF

Nenhuma ideia tem sido mais atacada em nossos tempos do que a ideia de verdade. “O que é a verdade”? Essa talvez seja uma das questões mais profundamente discutidas hoje em dia. Eu, porém, suspeito que a obviedade da resposta à essa pergunta seja tão clara, que recusar a definição clara do que seja a verdade em favor de um relativismo alético seja algo proveniente de um medo social que grita por sua auto deificação. O relativista grita para dizer “eu tenho a minha verdade”. Em outras palavras, ele diz que é o dono da sua realidade.

É claro, os relativistas tentam esconder sua tese debaixo de uma série de argumentos linguísticos e epistemológicos. Mas, em última análise, tais argumentos se encontram em um beco sem saída. Isso porque os argumentos a favor do relativismo são, em geral, baseados em confusões ou em ideias contraditórias.

Definindo a Verdade

Antes de propriamente definirmos o que é a verdade, considere o seguinte exemplo: suponha que João vá ao médico e lhe diga que necessita ser atendido, pois não tem se sentido bem nos últimos dias. Como bom profissional, o médico lhe pede uma série de exames para estipular o que há de errado com João, e lhe pede que volte dentro de alguns dias para saber o resultado. Passados os dias, João retorna (dessa vez acompanhado) ao médico que lhe diz: “você está com câncer”. Devastado, João se entristece, começa a avisar os familiares e amigos mais próximos e logo começa o tratamento. Infelizmente, algumas semanas depois João falece.

Qual é o propósito dessa história? Ora, vemos com clareza aqui um princípio fundamental por trás de toda busca por algum conhecimento (no caso, João queria saber o que há de errado com ele). João esperava que o que o médico dissesse correspondesse com o que havia de errado com ele. Os exames serviram para apontar ao médico o que ele deveria dizer a João, sendo que ele busca a verdade sobre o que estava acontecendo com João.

Isso é precisamente o que todo e qualquer ser humano deseja. O conhecimento busca algo verdadeiro, não algo meramente interpretativo. Aristóteles abriu sua Metafísica dizendo que todo ser humano busca, por natureza, o conhecimento. Mas que conhecimento seria possível, se não houvesse verdade? Nenhum. Por isso a verdade é tão importante: nenhuma área do conhecimento humano seria possível se não houvesse verdade. De fato, seria completamente inútil alguém querer buscar conhecimento sobre o mundo, tendo em mente que esse conhecimento seria, na verdade, uma interpretação cultural e temporal de como o mundo é.

“Verdade”, portanto, é definido como a correspondência com a realidade, ou com os fatos. Em outras palavras, há uma correspondência entre um portador da verdade com aquilo que assegura a verdade (ou criador de verdade). Deve ser apontado que a Teoria da Verdade como Correspondência não utiliza como portador da verdade uma sentença ou um enunciado. Em outras palavras, o valor de verdade não está nas nossas formulações linguísticas e sons expressando-as. Uma das razões para isso é claramente apontada por nossos amigos relativistas (e, inclusive, usada por eles como argumento): sentenças e enunciados podem cair em uma grande ambiguidade.

Considere a frase dita pelo médico a João no exemplo acima: “você está com câncer”. Há uma ambiguidade, ainda que implícita, nessa sentença. O médico está querendo dizer que João está com a doença chamada câncer ou que um possível acompanhante de João no hospital seja do signo de câncer? Então, a sentença “você está com câncer” pode possuir valor de verdade tanto verdadeiro quanto falso. Isso nos levaria a sérios problemas, pois haveria um valor de verdade misto nessa sentença. Como William Alston explica:

Há razões teoréticas fortes para se desejar portadores de verdade que possuam um único valor. Se o meu conhecimento de p requer que seja verdade que p, eu me sentiria traído se, depois de ter garantido de que é verdade que p, alguém dissesse, “Mas isso também é falso”. Novamente, muitas relações lógicas ligam o valor de verdade do relatado. Aqui é crucial que cada item tenha apenas um valor de verdade. [1]

O problema dos enunciados como portadores de verdade

Alston aponta que o mesmo problema se encontra em colocar enunciados como portadores de verdade. Suponha, por exemplo, que a arvore no parque esteja morrendo. Você, então, diz ao seu amigo que a arvore está morrendo. Prontamente, ele responde “isso é verdadeiro”. Ao que a palavra “isso” se refere? Ao que foi afirmado ou ao ato de afirmar algo? Em outras palavras, o que foi afirmado que é verdadeiro, ou o ato de afirmar que foi verdadeiro? É óbvio que a resposta natural seria a primeira, mas a ambiguidade no enunciado ainda assim é existente [2].

A ineficácia de sentenças/enunciados como portadores de verdade fica evidente quando se considera o fato de que há sentenças e enunciados que não podem ser classificados como verdadeiros ou falsos. Para se possuir valor de verdade, deve haver sentido, mas há sentenças/enunciados que não possuem sentido [3]. Considere, por exemplo, a primeira estrofe do famoso poema sem sentido Jaguadarte, de Lewis Carrol:

Era briluz. As lesmolisas touvas
roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

A sentenças colocadas simplesmente não fazem sentido. Poderia ser dito que o que importa era o que Carrol queria dizer com essas palavras, e que nós simplesmente não sabemos. Porém, nesse caso, isso se aproximaria demais de proposições, que é justamente outro candidato a portador de verdade. Além de sentenças sem sentido, há enunciados que expressam emoções (“Ai!” em caso de sofrimento) ou realizam ações (declarar “eu aceito” em um casamento) [4]. Desse modo, vemos com sentenças e enunciados são inapropriados para serem portadores de verdade.

As proposições como portadoras de verdade

Ainda assim, há mais razões para se atribuir valor de verdade a outra coisa, e não a sentenças e enunciados. Essa outra coisa é a proposição, ou conteúdo proposicional de uma sentença ou de um enunciado. A proposição claramente não é o mesmo que um enunciado ou uma sentença, e há diversas razões para se crer nisso. Essas razões foram bem apontadas pelo filósofo J. P. Moreland e elas demonstram, não apenas a diferença entre enunciado/sentença e proposição, mas também a como as sentenças não são necessárias e nem suficientes para se ter o conteúdo proposicional [5].

Não são necessárias, pois, as crianças possuem conteúdo em seu pensamento antes de aprender qualquer tipo de linguagem. Afinal, de que outro modo elas aprenderiam a linguagem? Além disso, nós mesmos pensamos sem a linguagem constantemente. Mais importante que isso, o mesmo conteúdo proposicional pode ser expresso em um número potencialmente infinito de sentenças. Eu posso dizer que “a neve é branca”, “snow is white”, “la nieve es branca” ou “schnee ist weiss” e eu sentenciei a mesma proposição. Nesse caso, a proposição também pode ser enunciada por um número potencialmente infinito de enunciados.

Moreland continua com um exemplo claro de como uma sentença também não é suficiente: suponha que uma erosão num monte cravasse o conjunto linguístico de palavras “eu erodi”. Apesar de ser empiricamente equivalente a qualquer outro sinal linguístico desse tipo que expressasse uma proposição, essa sentença não possui nenhum sentido ou conteúdo, pois não possui intenção autoral [6].

Por ser algo fora do espaço e do tempo, a proposição é imutável e, portanto, o melhor candidato a portador de verdade. Desse modo, devemos entender que sentenças e enunciados não são próprios para portadores de verdade, mas sim o conteúdo proposicional de uma sentença/um enunciado.

A ineficácia de conjuntos linguísticos é irrelevante

Com os problemas acima, fica claro que a ineficácia de conjuntos linguísticos como portadores de verdade é irrelevante. Um pós-moderno ou mero relativista aponta para o fato da linguagem constantemente mudar de sentido e significado, caindo em ambiguidades e dificuldades de entendimento pelo intérprete. Também se aponta que essa ambiguidade e ineficácia de enunciados e sentenças não representa a realidade de forma precisa. Por causa de todas essas dificuldades linguísticas, o relativista diz que a verdade (supostamente portada por uma sentença) é relativa. Mas a sentença e o enunciado como portadores de verdade é justamente o que um teorista da verdade por correspondência nega. Como Moreland diz:

Os pós-modernos atacam um espantalho quando eles focam nas alegadas inadequações de objetos linguísticos para fazer o serviço que é requerido a eles na teoria da verdade por correspondência. […] Infelizmente, mesmo concordando com o fato de que a linguagem (e certas sensações) é problemática se tomada para representar as coisas do mundo (por exemplo, concordando que a conexão linguagem/mundo seja arbitrária), se segue que o sujeito humano falha em conseguir representar o mundo de modo preciso apenas se nós concordarmos com a ainda afirmação errônea de que as entidades representacionais são limitadas à linguagem (e a certas sensações). Mas isso é precisamente o que os teoristas da verdade por correspondência negam [7].

Além disso, se fosse impossível descobrir o que uma sentença quer dizer (e qual seu conteúdo), como poderia o relativista descobrir essa dificuldade? Se a sentença “o homem é a medida de todas as coisas” tiver tido um sentido diferente há 2500 anos, e é impossível que nós descubramos esse sentido, então um intérprete moderno nunca descobriria que houve esse sentido obscuro. Ele simplesmente leria essa frase entendendo-a no sentido atual que a sentença lhe parece transmitir. A própria mutabilidade da linguagem seria impossível de ser descoberta.

O fato simples é que a verdade deve ser entendida como a correspondência entre uma proposição e um fato ou estado de coisas. Os relativistas e pós-modernos atacam um espantalho quando atacam a ineficácia de sentenças e enunciados como portadores de verdade. Um teorista da verdade por correspondência não usa esses artigos linguísticos, mas sim o conteúdo deles.

A Teoria da Verdade por Correspondência é verdadeira?

A questão que nos cerca agora é: a teoria da verdade por correspondência é verdadeira? Dois argumentos principais têm sido discutidos em favor dessa teoria [8]: o argumento fenomenológico e o argumento dialético.

O argumento fenomenológico

Suponha que José receba um telefonema dizendo que João havia morrido de câncer. Nesse momento, surge um novo estado mental em José, de que João está morto. José torna-se consciente do conteúdo de seu pensamento, o que o indica duas coisas relacionadas a ele: a natureza do objeto intencional do seu pensamento (João, que está morto) e passos necessários para se verificar a verdade desse pensamento. Ele não iria, por exemplo, verificar a verdade do seu pensamento indo assistir à Copa do Mundo. Ele sabe que deve ir a um determinado local averiguar se o corpo está, de fato, morto.

No caminho, ele encontra seu amigo, Pedro, que o acompanha sem saber o porquê e nem onde está indo. Ao chegar no local, ambos possuem a experiência sensorial de ver o corpo de João e um papel indicando a causa da morte. Nesse caso, José possui uma experiencia que Pedro não possui: a de experimentar que o conteúdo do seu pensamento (a proposição “João morreu de câncer”, que o guiava o caminho todo) corresponde com os fatos, ficando, assim, consciente de que seu pensamento era verdadeiro [9].

O argumento dialético

Em poucas palavras, esse argumento diz que qualquer um que desenvolva uma teoria de verdade alternativa ou que rejeite a teoria da verdade por correspondência terá que pressupô-la. Em outras palavras, quem defende teorias de verdade e ataca a teoria da correspondência espera que suas declarações sejam verdadeiras de modo que correspondam com a realidade ou o contrário disso? Se o primeiro, então essas declarações são auto refutáveis. Se a segunda, então não há motivo para aceita-las [10]. Em outras palavras, se alguém diz que a verdade é outra coisa senão a relação de correspondência da proposição com o fato, então ele está pressupondo que a verdade seja outra coisa. E essa outra coisa (ou, outra teoria) corresponde com a realidade.

Considere, por exemplo, a teoria pós-moderna de verdade. Essa teoria diz que a verdade varia de cultura para cultura e de época para época. Deixando (por hora) os vários problemas lógicos dessa teoria, note que o pós-moderno deve pressupor a teoria da correspondência para defender a teoria pós-moderna. Quando ele diz que a verdade é algo cultural, ele pressupõe que haja um fato de que as culturas definem suas verdades, ao qual é correspondente com as asserções de sua teoria.

Características da Verdade

Tendo explicado e argumentado a favor da teoria da verdade por correspondência, vimos também que não há razão para negá-la. Ninguém vai ao médico querendo que ele diga algo que não corresponda com os fatos. Do mesmo modo, mesmo quando vamos ao banco não podemos dizer ao caixa que a conta negativa “é verdade para ele, mas não para mim”. Nesse sentido, há certas características da verdade que se tornam evidentes: primeiro, a verdade é sempre descoberta, nunca criada. Uma pessoa não pode criar uma verdade, pode apenas descobri-la. A Terra nunca foi plana, ela sempre foi redonda, não importa o quanto as pessoas tenham acreditado que ela fosse plana. Segundo, a verdade não depende de culturas, mas é sempre transcultural. Não existe nenhuma cultura que diga que 2+2 seja 47, ou que triângulos possuem quatro lados. Nenhuma cultura pode elaborar um conceito de solteiros casados ou de uma primeira-causa causada.

Este último caso nos leva ao terceiro ponto: a verdade sempre está conformada aos primeiros princípios da lógica, que são inegáveis. Os princípios da lógica são: o princípio da identidade (A é A), o princípio da não-contradição (A e não-A não podem ser verdade) e o princípio do terceiro excluído (entre A e não-A, não há terceira opção). Suponha que alguém diga: “bom, eu acho que A e não-A podem ser verdade”. Estaria ele fazendo uma asserção coerente? Claramente que não. Pois ela se contradiz. Se A e não-A pudessem ser verdadeiros, isso significaria que o seu oposto (“A e não-A não podem ser verdadeiros”) seria falso. Em outras palavras, A (“A e não A podem ser verdadeiros”) seria verdadeiro, enquanto não-A (“A e não-A não podem ser verdadeiros) seria falso. Sendo assim, esses princípios são verdades absolutas.

Em quarto lugar, a verdade independe de quem a professa. Uma pessoa pode ser a mais imoral que for, se ela falar a verdade, será verdade independente dela. E finalmente, em quinto lugar, a verdade independe de crenças. Uma pessoa pode crer com todas as forças que a Terra é plana, ela nunca será plana.

Conclusão

Concluímos a primeira parte com uma recapitulação do que foi dito aqui. Verdade deve ser entendida como a relação de correspondência entre uma proposição (o conteúdo de uma sentença, enunciado, pensamento, entre outros) e um fato. Nesse sentido, p é verdadeiro se e somente se for o fato de que p. A verdade nesse sentido é a que experimentamos todos os dias e desejamos. Além disso, seria contraditório ir contra a verdade por correspondência, pois seria necessário pressupô-la. Mais do que isso, a verdade independe dos meus desejos, conhecimento ou cultura. A verdade simplesmente existe e deve ser descoberta.


Referências

[1] ALSTON, William, A realist conception of truth, New York: Cornell University Press, 1996, p. 10.
[2] Ibid. p. 14.
[3] CRAIG, William Lane; MORELAND, J. P. Filosofia e cosmovisão cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 173.
[4] Ibid.
[5] MORELAND, J. P. Kingdom Triangle: Recover the christian mind, renovate the soul, restore the Spirit’s power, Grand Rapids, MI: Zondervan, 2007, p. 84 (Publicado no Brasil como O Triangulo do Reino, São Paulo: Editora Vida, 2011).
[6] Ibid.
[7] Ibid. p. 85.
[8] Filosofia e cosmovisão cristã, p. 179.
[9] Ibid. o exemplo foi modificado e adaptado por razões didáticas.
[10] Ibid. p. 180.

Download PDF

Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

    1 Response to "O que é Verdade? – Parte 1: Correspondência"

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.